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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1980-4288

A liberdade na modernidade líquida

A liberdade contemporânea tem um significado muito diferente do que havia há cem anos, quando a individualização passou a significar a emancipação do homem. O texto aborda diversas obras de Bauman, principalmente o “Capitalismo parasitário”.

Fonte: Gisele Leite

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Introdução


Desde sempre a liberdade é o motor da ação humana que tanto inspira e representa a morada da alma. Porém, há de se conscientizar sobre a condição de servidão[1], para realmente refletir sobre a liberdade que se vive e que se deseja.


A contemporaneidade promove e incentiva cada vez mais a liberdade individual, contudo a autêntica e legítima liberdade pode ser muito prejudicial aos projetos neoliberais de controle e dominação, por isso, uma avaliação estruturada nas teorias sociais de Bauman nos revela que a liberdade perdeu ou se transformou e vive sob a influência direta da ideologia dominante que delibera sobre o futuro econômico e social do mundo.


Nesse cenário, surgem os novos indivíduos, ou simplesmente os neoindivíduos que por se fecharem acriticamente na sua hiperindividualidade egoísta, são parte das engrenagens dessa ideologia totalitária e, colaboram com a opressão, distanciando-se de se libertarem pela razão e pela crítica reflexiva.


A falta de liberdade do indivíduo na contemporaneidade é permeada por fatos, por vezes, imperceptíveis em uma sociedade, como a brasileira, voltam a forçar uma análise sobre a significação e fundação das relações pessoais.


Procurando comprovar a liberdade individual tão propalada pela ideologia neoliberal, vista como bem mais precioso, conclui-se que é uma ilusão porque o indivíduo superindividualista é resultante do neoliberalismo e, sofre uma falta crônica de liberdade que é vivida de forma inconsciente.


Apesar de a máxima neoliberal ser a intensa valorização da liberdade individual, porém, contrasta com a finalidade do neoliberalismo que necessita de comportamentos previsíveis e massificados para sua existência e pleno desenvolvimento.


Diante desse paradoxo, surge a justificativa para se analisar adequadamente o comportamento do neoindivíduo[2]. O termo neoindivíduo advém do neoliberalismo, isso porque é integrante e fiel colaborador dessa ideologia distrópica.


Afinal, para Bauman a modernidade líquida/fluída por não manter a forma com facilidade, não fixa o espaço e nem prende o tempo, os líquidos estão sempre prontos e propensos à mudança de forma e, podem apresentar leveza, mas podem ser até mais pesados que muitos sólidos.


Em essência, a grande mobilidade e acelerado devir do líquido é um bom representante metafórico da modernidade contemporânea que não tem forma distinta e está sempre mutante[3]. O comportamento do neoindivíduo sofre pressões externas que limitam e manipulam suas escolhas e, atingem, portanto em cheio, a sua liberdade.


Para Sartre, se não há escolhas, também não há liberdade. A liberdade não pode ser abstrata e tão pouco transcendente, tem que se manifesta em atos concretos e, foi o mesmo filósofo existencialista que afirmou que “o homem está condenado a ser livre”, pois sempre faz escolhas e, até o ato de não-escolher representa igualmente uma escolha[4].


Na modernidade líquida, a máxima de Sartre deve ser revista em parte, onde não existe a forma de não escolher. Há no mundo neoliberal a pseudomultiplicidade de escolhas que sempre tem o mesmo fim, o de consumir.


O consumismo é o núcleo e a forma de conduta individual e coletiva presente e importante na modernidade líquida e que causa o enclausuramento cíclico  sem fim.


A sensação de liberdade é apenas uma ilusão de tempos de liberdade excessiva. Explica-se pelo comportamento massificado e pela busca hiperbólica da felicidade a qualquer preço. Aliás, o preço é a palavra-chave do neoliberalismo[5].


Ao analisar a liberdade dos consumidores ativos posto que tenham as maiores potencialidades de produzir riquezas, pois afinal pagam impostos e compram não apenas para sobreviver e suprir suas necessidades básicas, mas para encontrar a felicidade, o que tem sido a busca ontológica da humanidade, pois o neoliberalismo se tornou o Oráculo de Delfos[6] contemporâneo, capaz de responder tudo sobre a falta de felicidade e sobre as angústias.


A porção excluída, os miseráveis, que não participam dessa análise, posto que não possuam liberdade nenhuma e, vivem em condição não-humana. Nessa análise concentram-se na população economicamente ativa, os que podem comprar a liberdade ilusória e a felicidade efêmera e padronizada (one-way), contudo, sem considerar as especificações sociais, políticas e culturais.


Isso ocorre porque dentro de suas limitações de consumo, a busca do indivíduo neoliberal segue padrões bem definidos e previsíveis. Lembremos que o Brasil é país liderado, globalizado e regional e, na qualidade de país ainda em desenvolvimento, em situação oposta dos países desenvolvidos que são líderes, globalizadores e extraterritoriais.


Infelizmente somos um país retardatário de modernidade, temos a chamada modernidade tardia, o país do Hércules-Quasímodo[7], dono de cultura subdesenvolvida, de educação frágil, com abismos sociais, com altos índices de violência (por vezes superiores mesmo aos de países em guerra), submetido a um governo extremamente corrupto e de democracia principiante.


Assim, o que analisamos é o chamado “indivíduo periférico” posto que seja globalizado e dominado. O neoliberalismo constrói uma ordem social em constante mutação, não é apenas uma condição econômica, mas uma revolução social, onde o status social norteia os comportamentos humanos.


No neoliberalismo somos “peixes dentro d’água”, em suma, o neoliberalismo é ambíguo e nos envolve e norteia ciclicamente pelo seu devir.


O neoindivíduo corresponde ao indivíduo líquido que aceitou irrestritamente a ideologia neoliberal, que abraçou o capitalismo líquido, sem questioná-lo, adotando todas as condições impostas pelo modelo de vida, voltado para o consumo, entendido como a única forma de felicidade possível.


Os fins da ideologia neoliberal é produzir e fomentar sentimentos superindividualistas nos membros economicamente ativos e deliberar sobre a liberdade individual na sociedade contemporânea.


O que sustentam os argumentos hipotéticos na Sociologia, deriva das afirmações como as de Hobsbawn[8] (1995) que apontou que a revolução cultural do século XX pode ser definida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, uma destruturação das relações sociais e dos padrões esperados de comportamento das pessoas (em convivência).


No liberalismo atual, prêt-à-porter os primeiros teóricos, como Hobbes já noticiava a universalização do individualismo estruturado na lei do mais forte, um comportamento que destrói a coletividade, a solidariedade e a democracia. Instituiu uma competitividade antropológica dentro das relações sociais.


Bauman, como teórico da pós-modernidade, identificou a base conceitual da liquefação ontológica, afirmando que a batalha mortal e infinita entre a liberdade e a dominação forma a individualidade de seus membros, e estes, formam a sociedade a partir das ações da vida.


No entanto, na apresentação da modernidade líquida, há a participação de seus membros como superindividualistas que é a sua marca registrada. Assim Bauman anunciou que a individualização contemporânea tem um significado muito diferente do que há cem anos, quando a individualização significou a emancipação do homem.


A contemporaneidade, como é sabido, é caracterizada por uma série de mudanças e, existem as manifestas e aparentemente negativas, deteriorantes e contraditórias.


Por um lado, se busca uma sociedade ideal, onde os interesses minoritários estão na base estrutural de uma sociedade mal definida, impregnada de contradições e mergulhada no niilismo[9].


Visivelmente a infelicidade, o medo, a angústia e o apego excessivo aos bens materiais (têm caracterizado o homem contemporâneo que seria em tese o resultado perverso da equação neoliberal). Mas, o homem contemporâneo deve ser entendido em seus anseios e, ainda, entender epistemologicamente as forças que produzem o desejo de se enquadrar a qualquer custo, num padrão pré-estipulado de comportamento, que rompe com as instituições sociais e, confecciona uma nova ética privatista.


O neoindivíduo com a ausência real de liberdade individual, atrela-se aos modelos e conceitos predefinidos, aos padrões que massificam, manipulam e coisificam e enclausuram aqueles que estejam excluídos desses padrões.


Quanto mais a sociedade enriquece, maior é a vontade de consumir e, quanto mais consome, mais se quer consumir.


A época da abundância é inseparável de um alargamento indefinido da esfera de satisfações desejadas e de uma incapacidade de eliminar os apetites de consumo, sendo toda saturação de uma necessidade acompanhada imediatamente por novas procuras.


Atenta-se para o consumismo frívolo que é cheio de significados simbólicos que também movimenta a economia onde, de fato, os principais favorecidos são poucos. A demanda massiva de consumo enriquece aos poucos. E, os que fazem rodar o círculo do consumo, são objetos que se despem de sua subjetividade para participar de um processo ambíguo que é o neoliberalismo.


Seguimos o caminho como ovelhas passivas e ao rebanho logo aderimos, com medo de nos desgarrarmos. Questiona-se: Será que sabem o que estão fazendo? Será que pelo exemplo socrático, seguimos aqueles que são os mais importantes e influentes? Ou pelo simples atendimento ao discurso democrático de que a maioria sempre tem razão?


O mesmo Sócrates que nos ensinou por meio de sua dialética, a sermos menos resignados e menos inclinados a seguir obedientes à massa. De acordo com o pensamento socrático tem-se a responsabilidade de pensar, mesmo sem a formação para isto. Mesmo onde a educação é nula ou inexistente e que não proporciona uma instrução humana adequada e crítica que estimulará a vontade racionar, de usar os benefícios do intelecto. Enfim, a escola precisa formar o ser pensante, humanista, moral, ética e coletivista.


Nas escolas privadas que possuem como único objetivo uma competitividade, que exclui as questões humanistas, fechando-se somente na produção de discentes que concorrem para as melhores colocações em exames e nos rankings e, fazem publicidade dessas instituições de ensino privado.


Portanto, o ensino privado é apenas mais um bom negócio empresarial. Mas, essa educação não forma um indivíduo apto a enfrentar os desafios humanos da coletividade na sociedade e nem os paradoxos mutantes da contemporaneidade.


Baseiam-se na ética regulada pelo mercado, a atividade considerada como boa é aquela que oferece maiores lucros e menores ônus. Infelizmente a educação[10] contemporânea falha em suas funções básicas de humanização e, deixa de formar a moral edificante, e ainda, encontra a família em crise por fragmentação e individualismo, imersa num mundo de disputas pelas recompensas prometidas pelo neoliberalismo.


Infelizmente os pais deixam a cargo das escolas a confecção do caráter dos filhos, que, conforme exposto, não o farão de forma saudável para uma sociedade ideal e, o neoliberalismo se aproveita disso, e fomenta de forma cruel e predatória essa falha no neoindivíduo.


Explica o capitalismo que todos possuem a condição de alcançar riqueza e os confortos do mundo sensível, um mundo meritório como oportunidades iguais para todos. Tal modalidade social acessível a todos, trazem exuberantes recompensas, como a de acúmulo de capital e o deleite do consumo, que enchem de prazeres o mundo sensível do indivíduo neste inserido.


A publicidade e o marketing se encarregam de reafirmar, constantemente, a recompensa da posse do capital e, consequentemente o de como gastar esse capital.  É são desenvolvidos os motivos ontológicos e culturais que fazem desse ciclo um comportamento compulsivo.


A compulsão à mobilidade social funciona como uma mola propulsora da individualização contemporânea e gera sérios problemas na família: afinal, de quem é o papel de construção de caráter dos filhos? Quando ocorre? E, de qual forma? Questões intrigantes muitas vezes negligenciadas.


Em resumo, a família como instituição responsável pela confecção de um caráter ético e moral, se confunde nos papéis do casal e precisa se adequar a uma indeterminação efetiva do mundo do trabalho, então, as referidas questões são impelidas às instituições sociais de ensino.


Desenvolvimento


A noção de autoridade e reprodução cultural, ou seja, de limite (no sentido de confecção da conduta moral, de uma moderação, prudência e equilíbrio), e não de limite restritivo a emancipação, onde a ética e a moral, não são socializadas apenas em família, mas também na escola, então, a responsabilidade também é da escola, mas frise-se que não somente da escola.


O interessante é perceber que a escola, tratada como reforço ético e moral, encontra-se, talvez, mais impotente que a própria família, isso pode ser ratificado com a afirmativa de que as crianças, antes de serem alunos, são também e principalmente clientes.


A mobilidade líquida afeta as questões empresariais das escolas, pois se o aluno/cliente ficar insatisfeito, escolherá ou forçará as escolhas dos pais por outra escola, então uma escola/empresa não tem como impor o limite que gera o equilíbrio, a ética exige, poder-se-ia dizer, uma mencionada autolimitação. (In: BAUMAN, Z., O mal-estar da pós-modernidade, 1998).


E, consequentemente, gerar uma sadia noção de moral nessa criança, pois essa escola corre o risco de perdê-la como cliente para outra empresa de ensino.


Piaget[11] nomeou de estágio pré-operatório (de 2 a 7 anos) crianças ocupantes que começam a desenvolver sua capacidade simbólica, o lugar de origem das noções de certo e errado (ética), pode e não pode (limite), a relação e a conduta correta na coletividade (moral).


E, nos estágios das operações concretas (7 a 13 anos) e do operatório formal (de 13 anos em diante), a preocupação escolar se concentra em produzir competidores, aptos a vencer concursos e provas, para, de forma direta, promover a imagem institucional dessas escolas, ficando as questões humanas, novamente relegadas a uma segunda instância de preocupação.


Sobra ao neoliberalismo que se revela em ser o expert na educação capaz de inculcar os preceitos de moderação ética e moral (ou a total falha destas) nas crianças economicamente ativas na sociedade. As relações humanas do futuro são esquadrinhadas na escola que reproduz tal qual uma maquete a realidade político-social onde está inserida.


Percebemos que a escola e a família estão tendo problemas de inculcar no indivíduo contemporâneo uma ética, que, consequentemente, geraria uma crítica que rejeitaria essa “moral do errado” a que temos assistido sistematicamente, recusaria e desaprovaria os governantes desonestos, tão pouco a opinião pública, porque já foi provado, centenas de vezes, que não há punição, posto que sejam blindados, pelas suas imunidades autoinstituídas, numa análise comportamental. Tais governantes (de vereadores até senadores, ministros e presidentes) são gratificados sistematicamente[12] por suas condutas, pela desonestidade e acabam de solapar o futuro.


A falta de punição em todos os níveis da sociedade, somada a não educação ética e humana, acrescidos os benefícios e recompensas do neoliberalismo (de posse e riqueza) confeccionaram um produto social que só tende a prejudicar e tornar inexorável o ciclo vicioso.


Os valores morais são subvertidos, e a humanidade está confundindo riqueza com bem-estar, e este, com a capacidade de consumo.


A vida urbana de hoje veio se desenvolvendo desde a Revolução Industrial, quando tivemos registro da primeira sociedade de consumo. Criou-se, então, a ostentação desnecessária de sofisticação supérflua, egoísmo, exacerbado, ganância, ansiedade e doenças. O dinheiro que antes seria apenas um instrumento de troca, se tornou a materialização de tudo. Enfim, a competição[13] está entranhada em nós.


Mas, Bauman ao nos apresentar a sociedade individualizada, nos apresentou também a sua fundamentação, é do mundo do trabalho que pode trazer algumas explicações: pois é claramente observável que confecciona a visão sob o indivíduo contemporâneo abandonando as suas raízes, cultura e família, ou seja, qualquer instituição basilar à sua conduta ética para abraçar a vida dedicada ao capital, ao lucro e à propriedade.


O indivíduo se destitui de sua humanidade subjetiva para ser tornar apenas a engrenagem ou objeto do sistema neoliberal. Eis uma questão crucial: o objeto[14] tem ética? Possivelmente não, responderia Bauman que tratou sobre a subjetividade na sociedade de consumidores que se resume ao comércio e aos símbolos usados na construção da identidade[15].


O discurso da coisificação do indivíduo contemporâneo é bem explícito nos relacionamentos virtuais que se baseiam na automercadorização do indivíduo. Na obra de Bauman, “Tempos Líquidos” ele demonstrou que o indivíduo não se fixa e nem se apega a nada e, nem a nenhum ciclo que perdure por um tempo. Para o neoliberalismo ou o capitalismo líquido, esse ciclo deve ser sistematicamente encurtado numa era evanescente, no império do efêmero[16] como indicado na obra do francês Gilles Lipovetsky (1989) que trata desse mesmo tema, porque o que dura não precisa ser trocado, ou comprado novamente, então deve ter-se a obsolescência cada vez mais acelerada e voraz, o que para a psicanálise freudiana se sustenta pelo gozo do novo ou pela novidade.


Pois nada do que já se possui, pode mesmo suprir o prazer[17] do novo e, tal perspectiva pode ser apreendida numa conjunção de coisas e relações. O neoindivíduo não tem aspirações de se estabelecer e nem alimentar relações duradouras.


No mundo líquido moderno, a solidez das coisas e dos sentidos, assim como os vínculos humanos é vista como uma ameaça; qualquer juramento de fidelidade, qualquer compromisso a longo prazo (e, ainda mais, por prazo indeterminado) prenuncia um futuro prenhe de obrigações que limitam e ceifam a liberdade de movimento e a capacidade de perceber novas oportunidades (ainda que desconhecidas) assim que inevitavelmente elas se apresentarem (In: Bauman, Capitalismo parasitário[18], 2010).


Conclui-se que o descompromisso ético em suas relações sociais, não causaria nesse indivíduo um constrangimento desonroso, pois as novas relações que hão de surgir e uma nova irremediável relação futura, que nascerá com prazo de validade.


Em resumo, para Bauman, no capitalismo sólido as relações sociais e familiares eram duradouras e estáveis, o trabalho estava à serviço da família e incentivava uma conduta carregada de responsabilidade ética.


Já no capitalismo líquido ou neoliberalismo, as relações de amizade são efêmeras, a família vem em segundo plano, as exigências profissionais obrigam uma mobilidade individual despreendida, tornando-se assim mais importantes que a própria família.


O neoindivíduo é o resultado de famílias solapadas pelo superindividualismo, superapego ao material, em que aplicam esforços desmedidos para reverenciarem os dogmas neoliberais. Que, por conseguinte, estabelecem famílias e novos indivíduos com o mesmo teor intenso de individualismo, somados as agravantes já citadas, como a escola-empresa e as fraquezas estruturais de caráter, os exemplos de desonestidades que acabam impunes, além de recompensar sensíveis que o direito traz.


Tornou-se tão em desuso a honestidade que, quando algum indivíduo comete um ato desses, é merecedora de manchetes de jornais e revistas e, sempre lhe é questionado o porquê de tê-lo feito.


A transcendência pode indicar rumos mais éticos ao neoindivíduo, salvando-se dos pecados da carne que levam fatalmente à ruína total. A nova ética[19] evangélica é reflexo do espírito de capitalismo tardio.  Devemos tentar entender qual a ligação da liberdade, da ética, da transcendência e do superindividualismo na contemporaneidade, em que o ascetismo[20] é o comportamento mais elementar do indivíduo.


Bauman nos lembrou de que o conhecimento da mortalidade dispara o desejo pela transcendência, contudo a busca pelo mundo espiritual tem uma perspectiva maior e complexa e mais mercantil.


A prática religiosa é imanente a uma conduta ética que naturalmente leva a uma moral, ou seja, normalmente uma conduta estabelecida pelo medo (da morte, do inferno, da punição em outro mundo), porém, na modernidade líquida, o medo se deslocou e reside na inadequação social.


Por isto, percebe-se a busca ascética e mais manifesta em novas doutrinas evangélicas que pregam a recompensa divina, não mais após a morte, mas ainda em vida, nas ações que campeiam as vantagens do mundo sensível, quiçá pondo de lado a parte mais triste e apavorante desse paradigma, a morte e a penitência.


O que nos leva a uma ética[21] distinta da habitualmente conhecida. Talvez seja uma liberdade de escolha, de usufruto dos presentes tidos pelo reconhecimento de Deus, uma troca mais tangível.


Segundo o censo estatístico, o cristianismo no ano de 2000 é provido de aceitação presente na vida de grande percentual de brasileiros, tendo uma ascensão vertical dos evangélicos em 1991, na ordem de 9% e, já em 2010 na ordem de 20% de seguidores. Tal dado estatístico merece atenção primeiramente pelo aspecto empresarial da religião.


Aliás, já se sabe que é vantajoso abrir uma igreja no Brasil, sendo baixo o investimento financeiro. E por não requerer nenhum pré-requisito teológico ou doutrinário e, ainda, em contrapartidas há várias vantagens tributárias[22] (como isenção de IR e IOF), além de todos os impactos que incidam sobre o patrimônio ou renda ou serviços relacionados com suas finalidades essenciais. Também existem vantagens extratributárias[23].


Cada vez mais neoindivíduos são adeptos a essa forma de religiosidade que buscam a transcendência sem os sacrífico capitais do capitalismo propriamente dito, tais como, a caridade, fraternidade, misericórdia, a vida na pobreza ou qualquer ação que acometa a individualidade.


Segundo Weber[24] o tipo ideal de religião deve contribuir quantitativamente do capitalismo, e a piedade popular, de forma resignada espera sua recompensa após a morte.


Em síntese, o desenvolvimento do neoliberalismo é apoiado por Weber, o ascetismo volverá com maior energia e as formas que justificam o acúmulo de capital e ao egocentrismo, confortando quem está na riqueza e incentivando sempre a sua busca.


A nova religião evangélica ascendente implica na ampliação e fortalecimento do individualismo, garante a paz de espírito nas suas ações egocêntricas, alimenta o desejo por recompensas do neoliberalismo e, ainda, reforça o discurso da promessa divina, ou da herança de Deus em vida e, não após esta[25].


Tal herança divina é alcançada através da adoração e culto e, não mais pela beneficência fraternal e solidária. A não ser pelo dízimo e pelas doações feitas às respectivas igrejas.


Enfim, tentando se livrar de tamanhos grilhões morais que impõem profundo sacrifício que o neoindivíduo encontra sua pseudoliberdade, na reinterpretação das escrituras bíblicas, na justificativa de uma “nova era cristã” que o transforma de cultuador, devedor para cumpridor e credor de Deus em sua vida.


Registram-se assim igrejas como revistas personalizadas resultantes da superindividualização, trazendo uma releitura sempre mais flexível do que a tradicional e, fugindo de uma conduta ética cristã habitual, vindo a confeccionar a sua própria.


Luiz Felipe Pondé[26] nos informa que não conseguimos fugir do mito posto que nos seja visceral assim como uma pele. Desta forma, o neoindivíduo não consegue se libertar de uma transcendência, tão pouco de seu individualismo egoísta. Então, a original e rígida moral cristã se encontra totalmente fragmentada e incapaz de propor limites éticos na sociedade líquida que, para continuar ligado a uma transcendência, confecciona as suas próprias seitas, normas e condutas.


O desejo do status provavelmente é o principal motivo de angústia do indivíduo, seja pela necessidade de se impor em uma escala social, seja para se sentir aceito pelo seu grupo.


O status é a forma de como perceber o indivíduo em sua sociedade, o status elevado é motivo de conforto, atenção e liberdade, é a forma de se sentir valioso e merecedor de adulações e respeito.


O status é uma condição de valorização pelo outro. Na sociedade meritocrática, o rico é valorizado como alguém virtuoso, por apresentar alguns predicados, aparentemente intrínsecas à sua riqueza que são criatividade, inteligência, perseverança e coragem. E, é pela virtude que se alcança o status elevado.


Da mesma forma que o pobre é percebido pela sociedade, como desprovido de virtude, sua pobreza é entendida como fruto de preguiça e pouca inteligência. O dinheiro está revestido de uma virtude que incorpora no seu detentor os motivos sociais que legitimam o recebimento de prestígio, atenção e respeito.


O status não é privilégio apenas dos ricos, a sociedade se subdivide em classes sociais e suas divisões, o indivíduo trava sua luta pela ascensão nos seus grupos de referência. É travada dentro de grupos de identificação. A necessidade do status tem um motivo infame que é o de receber o amor do mundo; ser amado ou ser rejeitado pelo mundo que pode ser prazeroso ou doloroso.


Durkheim citado por Bauman afirmou que o indivíduo se submete à sociedade, e essa submissão é a condição de sua libertação (...) é uma dependência libertadora e, não há nisso contradição.


Locke já aludiu que a liberdade individual só está protegida sem somente se, esta for limitada pelas leis da natureza e/ou civis. A liberdade só existe dentro da circunscrição da liberdade.


Afinal por Locke e Durkheim a liberdade só pode ser expressa dentro do controle coercitivo do Estado, em suma, a liberdade e o direito à propriedade privada.


Questiona-se que tipo de liberdade é essa? Freud engrossa a base conceitual afirmando que essas riquezas e propriedades existentes e, possíveis somente na sociedade ou civilização. Por isso, há restrição a liberdade por meio da coerção do Estado, para que alguns tenham a liberdade de serem ricos.


Mas será a liberdade existe com maior, intensidade no bom selvagem[27] de Rousseau? Que era feliz porque não se submetia a nenhuma força estatal e viva em harmonia com a natureza.


É difícil, às vezes, entender que a liberdade tinha uma existência paradoxal como a sua ausência. Para Bauman o grau de liberdade é preenchido pela crítica do indivíduo o que está errado em nossa sociedade em que vivemos é que ela deixou de se questionar.


Conforme disse Bauman à crítica é impotente e incapaz de afetar nossas escolhas. A sociedade líquida é insensível às críticas, tornando-se um campo fértil para a coisificação e da alienação proposta pelo neoliberalismo.


No paradoxo contemporâneo de liberdade, Bauman afirmou: “A liberdade sem precedentes que a nossa sociedade oferece aos seus membros chegou, como há tempos nos advertia Levi Strauss, e com ela também uma impotência sem precedentes”. (In: Bauman, Z. Modernidade Líquida).


Liberdade não é expressão unívoca, essa é a única certeza, talvez a liberdade seja utópica, inexistente, sem realidade, mas podemos perceber que o mundo contemporâneo e neoliberal gerencia ou circunscreve, ao máximo, essa condição subjetiva do indivíduo.


O neoindivíduo possui uma liberdade impregnada de ideologia e confecciona o que deve ser visto como liberdade e a falta desta. Para Bauman, há a busca, o desejo, o amor pelo produto, e de forma parecida o neoindivíduo curiosamente se comporta de modo similar, agindo como produto.


A subjetividade dos consumidores é feita por opções de compra, assumidas pelos sujeitos e potenciais compradores. A tese de Bauman explica a supressão da subjetividade humana e o comportamento coisificado onde o neoindivíduo aparece como mercadoria pronta para ser apreciada e consumida e disputada por ser motivo de desejo.


Desta forma, como no desejo[28] de status faz tudo para ser amado, reafirmando sua condição incompleta. Bauman ilustrou a afirmativa apontando para o comportamento dos participantes em sites de relacionamentos, que se portam como mercadoria na estante ou vitrine, sendo apreciada por pretensos consumidores virtuais.


É a cultura consumista, a do produto pronto e apto ao uso e consumo imediato para o prazer instantâneo, assim nada deve ser longo ou duradouro. Reforçou Bauman tal teoria de coisificação, pois até o processo de envolvimento emocional ocorre cada vez mais efêmero e seguindo a linha ditada pelo mercado.


Conclusão


A filosofia existencialista de Sartre nos informa que o homem está condenado a ser livre, mas o neoliberalismo ou capitalismo líquido promove profundas modificações na parte mais sensível e primária do neoindivíduo, construindo um desejo controlado e moldado por suas escolhas e pelo mercado.


Não estamos mais condenados a ser livres, estamos condenados ao amor, um tirano inconsequente que, inconscientemente ou institivamente, guia nossas atitudes e, é por meio dessas técnicas e processos norteados pelo neoliberalismo que se busca o status elevado que, no inconsciente coletivo, legitima e justifica receber amor do mundo.


O neoindivíduo ainda deseja ser amado e, é esse caminho conhecido para alcançar sua completude, consumindo e seguindo os conselhos do neoliberalismo. Na acirrada disputa social, além de produzir angústia poderosa e grilhões, desvirtua o indivíduo da coletividade e amplia a individualidade, utilizando-se do coletivo, apenas para a sua autoafirmação.


Não é fácil viver com os olhos postos e pregados em seu próprio desempenho e desviado do espaço social onde as contradições da existência individual são coletivamente produzidas.


Enfim, busca-se aprovação, a atenção, o respeito e o amor a qualquer preço havendo a persuasão do consumismo a superindividualização formando uma nova moral, a self moral[29].


Pois o neoindivíduo atua de forma acrítica, volúvel e moldável, sendo ingênuo em essência por não perceber que sua conduta é planejada, projetada e manipulada por outrem.


Bauman nos disse que mesmo vivendo em escravidão, o indivíduo pode se sentir livre, por isso não sente necessidade de libertar e perde a chance de se tornar verdadeiramente livre.


O neoindivíduo é resignado e aceita sem questionar, sem consciência sobre a liberdade que lhe foi imposta. Onde tudo depende do que eu possa comprar.


Referências


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BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada, vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.


________________ Amor Líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.


________________Capitalismo parasitário. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.


_______________ Globalização, as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


______________. Vida em fragmento, sobre ética pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.


DE LA BOÉTIE, Étienne. Discurso sobre a Servidão Voluntária. Disponível em: http://www.miniweb.com.br/biblioteca/Artigos/servidao_voluntaria.pdf Acesso em 05.3.2017.


FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martin Claret, 2007.


LEVY, Ruggero. Desejo e Prazer: A Construção do sujeito pós-moderno. Elogio ao pudor - em defesa de certo mistério. Disponível em: http://www.controversiasonline.org.ar/images/stories/PDF/n7-portu-Ruggero.pdf Acesso em 05.3.2017.


LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal. São Paulo: Cia. Das Letras, 2007.


________________ O império do efêmero. São Paulo: Cia. De Letras, 1989.


PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. São Paulo: Leya, 2010.


SOARES, Frederico Fonseca. Neoindivíduo: Questões sobre a liberdade na modernidade líquida. Cadernos de Zygmunt Bauman, volume 1, n.2. (Jul./2011).


_____________________ O desejo de status para o marketing: uma reflexão filosófica. Brasília; Revista Filosofia Capital, 2011.


WEBER, Max. A ética protestante e o espírito capitalista. São Paulo: Martin Claret, 2001.


Notas


[1] Com Le Discours de La Servitude Volontaire (1552) compreendemos que a origem da desumana opressão exercida pelos poderosos aos menos favorecidos é atemporal e universal.  A obra foi escrita por Etiénne de La Boétie, que era estudante de Direito e esmiúça os porquês que levaram a multidão a se permitir escravizar, de forma cega e voluntária, e sempre se dispor a servir. Os meandros da servidão estão inseridos em nós, na vontade de servir, apesar de ainda existir na alma humana o germe da razão, produtor da virtude, e de acordo com a própria natureza, nenhum ser humano pode ser mantido em servidão. Até os próprios animais prezam a liberdade e se recusam a servir, e quando o fazem é por imposição.


[2] O Discurso da Servidão Voluntária foi escrito quando o filósofo tinha 18 anos e representou uma crítica à legitimidade dos governantes, chamados por ele, de tiranos.


La Boétie explica de que maneira os povos podem se submeter voluntariamente ao governo de um só homem: em primeiro lugar, pelo hábito, uma vez que quem está acostumado à servidão tende a não questioná-la; em seguida, pela religião e pela superstição que se cria em torno da figura do líder.


No entanto, não são apenas esses dois métodos os elementos necessários para criar a servidão voluntária: o segredo da dominação consiste em envolver o dominado na própria estrutura da dominação, a saber, uma pirâmide de poder: o tirano domina meia dúzia, essa meia dúzia domina seiscentos, esses seiscentos dominam seis mil, e abaixo desses seis mil vêm todos os outros.  Para dominar a meia dúzia, ou seja, os seus cortesãos, o tirano atira-lhes migalhas, e estes, gratos, aceitam a submissão.


Essa estrutura de domínio é repetida, então, nos demais níveis: a meia dúzia em relação aos seiscentos; os seiscentos em relação aos seis mil; os seis mil em relação a todos os outros. Para La Boétie, os que estão em volta do tirano são os menos livres de todos, pois, se as outras pessoas estão obrigadas a obedecer, esses, além disso, querem antecipar os desejos do tirano, escolhendo, com essa atitude, livremente a própria servidão.


Portanto, os que estão na base da pirâmide, os camponeses e artesão, são, em certo sentido, mais livres e mais felizes, pois após obedecerem a uma ordem, podem gastar o resto do tempo com o que quiserem; já os cortesãos, por estarem próximos ao tirano, estão afastados dessa liberdade. O autor quer levar seus leitores a refletir sobre uma questão que está na base da política: o motivo que leva as pessoas a obedecerem. Concretamente, o que está por trás dessa questão é entender a causa que pode levar uma pessoa a abrir mão de sua própria liberdade, já que, para obtê-la, o homem precisa apenas desejá-la. Assim, a servidão voluntária, em La Boétie, se refere à perda do desejo de liberdade, uma vez que, “os homens, enquanto neles houver algo de humano, só se deixam subjugar se forem forçados ou enganados”.


[3] É necessário igualmente considerar que o superdesenvolvimento das instituições que atenuam as carências da proteção social e implantado nas regiões inferiores do espaço social, há uma rede policial e penal de malha cada vez mais cerrada e resistente. Pois à atrofia deliberada do Estado Social corresponde a hipertrofia distrópica do Estado Penal. Ou seja, a miséria e a extinção de um têm como contrapartida direta e necessária a grandeza e prosperidade insolente do outro. (In: WACQUANT, Loic. As Prisões da Miséria. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001).


[4] O paradoxo da escolha nos confronta que quanto maior forem as opções, e a necessidade de escolhas. E a cada escolha se produz uma paralisia que nos nega a sensação de liberdade. Por vezes estamos soterrados por opções a escolher, desde as emocionais até as materiais, e diante da norma variedade à escolha, a razão pode acabar ficando em segundo plano.


[5] Segundo a escola liberal clássica, os neoliberais acreditam que a economia tem seu curso designado de uma forma natural e livre e o determinante desse discurso é o preço, o neoliberalismo se difere do liberalismo a partir do pensamento de que o mercado seja desenvolvido de forma espontânea, isso significa que para que o preço sirva para ser um mecanismo de regulação da economia é necessário que haja condições favoráveis para o bom funcionamento do mercado no qual é também de extrema importância a estabilidade financeira e monetária.


A regulação do mercado deve ser feita pelo Estado, no que diz respeito aos excessos na livre concorrência. Uma parcela dos neoliberais possui a ideologia e prega a defesa de pequena empresa, confrontando os grandes monopólios.


[6] Localizado na região central da Grécia, foi um dos mais famosos oráculos da Grécia Antiga. E também o destino de grandes personagens da história, tais como Alexandre, O Grande, mas também de cidadãos comuns buscando por conselhos. Era considerado o umbigo do mundo, a cidade de Delfos recebeu esta alcunha graças ao mito que narra a busca de Zeus pelo ponto médio da Terra. No intuito de delimitar esse lugar, Zeus enviou duas águias de extremos opostos do mundo, uma voando em direção à outra. Elas, finalmente, se encontraram em Delfos, designando a cidade como centro do mundo, e fazendo de seu templo um local reconhecido com estima para aqueles que procuravam auxílio e segurança. O ponto de encontra das águas fora demarcado com uma pedra oval, chamada de ônfalo, ou seja, umbigo em grego.


O auge da importância do referido Oráculo deu-se no mundo antigo entre os séculos VI e IV antes de Cristo, e influenciou muito a política, através das consultas de grandes líderes. A influência do referido Oráculo não se restringia ao mundo helênico. Giges, rei da Lídia, buscando o direito de primazia e a isenção de taxas nas consultas com o oráculo, ofereceu muitos presentes em ouro e prata e, ganhou assim, sua simpatia. Foi considerado como primeiro bárbaro a visitar Delfos, e diversos reis lídios seguiram seu exemplo.


[7] É antológica a descrição meio cientificista de Euclides da Cunha que fez do sertanejo na sua obra "Os sertões" para descrever o homem da caatinga, Hércules-Quasímodo que conjuga a beleza e a força clássica (de Hércules da mitologia grega) com a fraqueza, feiura e o disforme romântico (Quasímodo, da obra de Victor Hugo). Hércules-Quasímodo é uma das mais famosas e discutidas definições do sertanejo. Símbolo ideal da problemática valorização que o autor atribuiu ao homem do sertão, essa é uma das chaves explicativas de uma das aparentes contradições que cercam a narrativa euclidiana.


[8] Eric John Ernest Hobsbawn (1917-2012) foi historiador britânico marxista reconhecido como importante intelectual do século XX. Ao longo de toda a sua vida, foi membro do Partido Comunista.  Para analisar a história do trabalhismo e os diversos aspectos que a envolvem, como as revoluções burguesas, o processo de industrialização, as diferentes manifestações de resistência, luta e revolta da classe trabalhadora, Hobsbawm dedicou-se à interpretação do século XIX. Sobre esse período, que, segundo ele, vai de 1789 (ano da Revolução Francesa) a 1914 (início da Primeira Guerra Mundial), publicou estudos importantes, como “Era das Revoluções” (1789-1848), “A Era do Capital” (1848-1875) e “A Era dos Impérios” (1875-1914).  Hobsbawm foi também responsável por análises aprofundadas sobre o que chama de "o breve século XX". Seu livro Era dos Extremos, lançado em 1994, na Inglaterra, tornou-se uma das obras mais lidas e indicadas sobre a história recente da humanidade. Nela, o historiador analisa o período que vai de 1917 – fim da Primeira Guerra Mundial e ano da Revolução Russa – até 1991, com o colapso da União Soviética e o fim dos regimes socialistas no Leste Europeu. Também importante no conjunto de sua obra é seu livro mais recente, “Tempos Interessantes”, publicado em 2002, no qual discorre novamente sobre o século XX e relaciona fatos históricos com sua trajetória de vida, sendo por isso considerado como uma obra autobiográfica. Em 2003, Hobsbawm ganhou o Prêmio Balzan para a História da Europa desde 1900.


[9] Niilismo, do latim nihil que significa nada, é termo filosófico que atinge as mais variadas esferas do mundo contemporâneo (literatura, arte, ciências humanas, teorias sociais, ética e moral) cuja principal característica e uma visão cética radial em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. É a desvalorização e morte do sentido, a ausência de finalidade e de resposta ao porquê. Os valores tradicionais depreciam-se e os princípios e critérios despedaçados e torna-se difícil prosseguir no caminho e, finalmente, avistar um ancoradouro.


O perigoso silogismo ilustrado pela frase de Ivan Karamazov, em Os Irmãos Karamazov, personagem de Dostoievski. "Se Deus está morto, então tudo é permitido" (em verdade, refere-se à mera interpretação de um diálogo desenvolvido entre os irmãos Karamazov, com a "intervenção" do Diabo). Entende-se por Deus, neste ponto, como a verdade e o princípio.


[10] Na obra “Capitalismo parasitário”, na parte intitulada "Novos Desafios para a Educação" que versa sobre a crise atual que a educação está enfrentando, crise que traz a tona problemas nunca antes enfrentados, problemas de difícil solução. No mundo líquido-moderno as pessoas procuram não manter vínculos sólidos com os outros seres humanos, a liberdade é prezada acima de tudo e entende-se que com os vínculos sólidos, esta é tolhida e limitada de algumas maneiras. Só são desejáveis os laços e vínculos que possam ser desfeitos a qualquer momento de forma prática e rápida quando já não forem considerados novidade. Procura-se avidamente pelo o que é descartável, aquilo que possui vida útil prolongada não chama mais atenção.


A educação também não fosse a essa regra, o tipo de conhecimento buscado é aquele que se aprende e se descarta facilmente, a felicidade nesses casos também se encontra do ato de adquirir e de se desfazer facilmente, a educação também se transformou em produto, fator que não favorece a educação institucionalizada.


[11] Jean William Fritz Piaget (1896-1980) foi biólogo, psicólogo e epistemólogo suíço, considerado um dos mais relevantes pensadores do século XX. E, defendeu a abordagem interdisciplinar para a infestação epistemológica e fundou a chamada Epistemologia Genética, teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano. Através de minuciosa observação de seus filhos e, principalmente de outras crianças. Piaget impulsionou a teoria cognitiva, onde propôs a existência de quatro estágios de desenvolvimento cognitivo humano, a saber: os estágios sensório-motor, o pré-operacional ou pré-operatório, o operatório concreto e operatório formal. Assim, as crianças só podiam aprender o que estavam preparadas a assimilar. Cabendo aos professores se aperfeiçoar no processo de descoberta dos alunos.


[12] As imunidades parlamentares são prerrogativas que asseguram aos membros dos Parlamentos ampla liberdade, autonomia e independência no exercício de suas funções, protegendo-os contra os abusos e violações por parte do Poder Executivo e do Judiciário.


A cláusula de imunidade penal temporária foi instituída em caráter extraordinário pelo art. 86, §4º da Constituição Federal vigente, e impede que o Presidente da República durante a vigência de seu mandato, sofra persecução penal, por atos que se revelarem estranho ao exercício das funções inerentes ao ofício presidencial.


[13] A sociedade contemporânea está associada à lógica competitiva, onde reina a instabilidade, a incerteza, os riscos da atualidade que dão o ritmo à produção e definem as relações dos homens entre si e com o mundo. O que também produz diversas formas de pressão psicológica sobre os indivíduos, a fim de arrancar a energia necessária para se conseguir a produção ilimitada. A grande carga de tensão presente nesse processo, sobretudo nos ambientes laborais, contamina também outros espaços de convivência, principalmente o familiar, generalizando-se um sofrimento emocional.


[14] Lembremos-nos do conceito de objeto para Lacan, a partir dos objetos da pulsão, a fim de discutir em que o advento do objeto a enceta a transposição do problema da relação sujeito/objeto, do campo do conhecimento. No qual um objeto se determina por certos parâmetros de funcionamento da razão.


[15] A sociedade contemporânea esvazia o sujeito, retira dele a capacidade de conduzir sua história. O sentimento de impotência o invade. A gigantesca engrenagem ganha impulso e dos mitos e deuses. Hoje, a ciência e a lógica são os referencias, mas a busca é do inusitado, a aventura é para o desconhecido, o mergulho é na incerteza. Nessa jornada, o final da prova não admite meio termo: só a competência – o sucesso, ou a incompetência - o fracasso.


[16] O filósofo francês Gilles Lipovetsky escreveu a obra intitulada, "O Império do Efêmero - A moda e seu destino nas sociedades modernas", publicado em 1987 e no Brasil em 2009, destaca-se como um painel de um pensamento ao mesmo tempo rebelde às tradições críticas clássicas e uma defesa do individualismo democrático daquelas sociedades. Sua tese pode ser resumida como a afirmação moderna de uma descontração das atitudes, gosto pela intimidade e pela expressão de sim ligados à galáxia dos valores democráticos - autonomia, hedonismo, psicologismo impulsionados pela cultura de massa e pela moda na sua expressão mais recente.


[17] A existência da dor crônica tem forçado os pesquisadores a ampliarem a compreensão da dor para além do fenômeno sensório e a reconhecerem a dimensão sociocultural e psíquica da dor. Para a psicanálise a dor é testemunho da presença da pulsão no corpo. A dor está regida na perspectiva freudiana pelo princípio do prazer-desprazer. Enquanto que para Lacan o gozo diz respeito ao que está para além deste princípio, ou seja, liga-se à pulsão da morte.


O gozo está do lado da coisa, num lugar abissal, não como abismo, e sim como uma pequena cavidade, representado pelo objeto pequeno a (objeto que encarna e reproduz a coisa). E tal concepção é antecipada por Freud quando apresenta, a dor como uma efração, como um a mais vivida pelo buraco no corpo. Lacan quis dizer com isso que a verdadeira satisfação pulsional não está nem do lado simbólico e nem do lado do imaginário, ela é da ordem do real. Enfim, o corpo humano é habitado pela linguagem, permanece e faz com que ele relacione o gozo ao significante.


O imediato ou a negação da mediação é o modo de operar o gozo para o Senhor nos tempos modernos, com a mesma velha estrutura do imperativo categórico determinante do discurso da maestria. Representa um sujeito que ao invocar o poder de determinar a produção de mais de gozar, produz o saber ser de si mesmo, como uma nova modalidade de gozo. O gozo aliou-se ao saber e requer estar sempre bem informado e informatizado.


[18] A obra “Capitalismo Parasitário” está estruturada em cinco capítulos, o primeiro cogita sobre a imperfeição do sistema capitalista que não consegue conciliar a coerência com a completude, quando age com coerência aos seus princípios gera problemas que não consegue solucionar, e se tenta solucionar os problemas gerados pelos seus fundamentos principais acabam por afastar-se deles, conforme afirmava Gödel.


É nesse capítulo que Bauman faz a comparação entre o capitalismo e o parasitismo, em que para garantir a sua sobrevivência um parasita busca um organismo saudável e ainda não explorado para que este lhe forneça o alimento necessário, fatalmente prejudicando seu hospedeiro e destruindo suas chances de prosperidade e até mesmo de sobrevivência. Assim como o parasita o capitalismo explora novas formas, novos recursos sempre em busca da obtenção de lucro necessário para alimentar a roda do sistema.


A capacidade de sobrevivência do capitalismo está exatamente na perspicácia em que se buscam e se encontram novos organismos para exploração rapidez em que o parasita se adapta aos novos organismos para a exploração à medida que os atuais vão perdendo as forças ou extinguem-se, e na rapidez em que o parasita se adapta ao novo organismo. O questionamento é saber até quando o capitalismo será hábil a encontrar novas fontes de exploração e, até quando essas explorações serão suficientes para garantir alívio temporário ao sistema e a todos os que sobrevivem em torno dele?


[19] O segundo capítulo da obra Capitalismo parasitário tem o título de "A Cultura da Oferta" que trata sobre o tipo de sociedade em que vivemos, onde valorizamos exageradamente o consumo, a sociedade de consumo que gira em torno de muitas ofertas que geram apenas a satisfação temporária. A cultura tem por característica sua desvinculação dos laços sociais, políticos e éticos. Tal característica adquirida por meio da criação de incontáveis ofertas, no envelhecimento rápido daquilo que se adquire e na rápida perda de sedução que o objeto gerava no adquirente. Critica-se o fato de que os produtos que se consomem se tornam facilmente obsoletos, e com uma facilidade ainda maior, novos produtos se tornam o objeto de desejo por parte dos consumidores que os adquirem para substituir os antigos, tornando nossa economia, uma economia da dissipação e do desperdício, conforme afirmou Bauman.


Os pertencentes à sociedade de consumo possuem uma relação muito desprovida de apego, de determinação e fixação com as pessoas ao seu redor, com as coisas que adquirem, com o que gostam, entre outros. Eles possuem uma facilidade incrível para desapegar-se. Esse tipo de cultura busca constantemente clientes a seduzir e não pessoas a cultivar, conforme colocou Bauman. A felicidade é sempre encontrada com o ato de consumir e de se desfazer do que foi adquirido, pois este já é considerado obsoleto.


[20] O ascetismo é doutrina de pensamento ou de fé que considera a ascese, ou seja, a disciplina e o autocontrole ortodoxos do corpo e do espírito, sendo um caminho imprescindível na direção de Deus, à verdade ou à virtude. Nessa corrente filosófica são refreados os prazeres mundanos e marcada pela austeridade.


[21] A ética pentecostal seria uma variante da tese weberiana e a ideia é que enquanto o protestantismo tradicional liberou o cidadão comum da culpa de acumulação de capital privado, as novas seitas pentecostais liberaram a acumulação privada de capital através da igreja. A maior ligação entre o espírito empresarial e a organização religiosa propiciou a adoção de novas práticas, como estratégia de comunicação através da compra de emissoras de televisão, rádio, a adesão de sistemas de franquias, uma ligação entre a política e a igreja entre outras. O interessante seria testar que difundida seria essa mentalidade materialista no praticante mediano, ou até que ponto a mesma estaria restrita nas elites clericais evangélicas.


[22] A imunidade aos Templos de Qualquer Culto está inserida no art. 150, VI, “b” da CF/88. O Código Civil de 2002 se refere a essas como Organizações Religiosas, que na atualidade, executam atividades de alcance amplo, notadamente na promoção social e na propagação da fé, contribuindo, assim, na diminuição de graves problemas que ainda assolam o país.


A Constituição Federal de 1988 busca garantir vários direitos e valores fundamentais inerentes ao ser humano. Dentre os inúmeros valores assegurados pela CF/88, destaca-se, entre os quais, a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, prevista no inciso VI do artigo 5º da Lei Suprema, no qual fica assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Em contrapartida, o art. 19, I, da CF/88, com o fim de se preservar o caráter laico do Estado, preconiza a neutralidade do mesmo perante as igrejas e cultos religiosos, proibindo que os entes públicos lhes embaracem o funcionamento ou os subvencionem, ressalvada, nos limites da lei, a colaboração de interesse público.


[23] Há também vantagens extratributárias. Os templos são livres para se organizarem como bem entenderem, o que inclui escolher seus sacerdotes. Uma vez ungidos, eles adquirem privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório e direito a prisão especial.


[24] Karl Emil Maximilian Weber (1864-1920) foi um intelectual, jurista e economista alemão considerado um dos fundadores da Sociologia. Seu irmão foi igualmente famoso sociólogo e economista Alfred Weber. A esposa de Weber, Marianne Weber, biógrafa do marido, foi uma das alunas pioneiras na universidade alemã e integrava grupos feministas de seu tempo.


Após a década de 1910, os estudos de Weber na área da sociologia da religião foram ampliados e ele passou a aprofundar seu conhecimento das religiões de caráter universal. Ao contrário de Durkheim, que partiu das religiões primitivas (totemismo), Weber dedicou-se à análise do confucionismo e do taoísmo, do hinduísmo e do budismo, do islamismo e do judaísmo, ou seja, dos grandes sistemas religiosos da humanidade. Conforme ele esclarece no Prólogo (Vorbemerkung) escrito para introduzir, em termos globais, seus Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião, seu objetivo primordial consiste em entender os fenômenos centrais do racionalismo ocidental, como a ciência, a técnica, a universidade, a contabilidade, o direito, a gestão racional das empresas, a música, o Estado Burocrático e, em especial, o capitalismo moderno. Conforme explicou sua esposa Marinne Weber, a descoberta da especificidade do racionalismo moderno foi a grande inovação sociológica de Weber e ele procurou desvendar suas origens e características, destacando o papel da religião neste processo.


[25] Leandro Karnal elucida com maestria que a Teologia da Prosperidade aponta que o atual e mais grave pecado é o fracasso financeiro. Deixamos de adorar santos e santas para incensar os grandes empreendedores. Há três novas teologias contemporâneas, o que renova ou pelo menos redimensiona os pecados. A teologia da autoestima ou da autoajuda, a teologia da prosperidade (das igrejas neopentecostais) e, a teologia do empreendedorismo (usada igualmente como modelo espiritual e unida à teologia da prosperidade).


[26] Aliás, Pondé diz que “a esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma”. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no Estado, na elite. Isso infantiliza o ser humana. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis, que estão salvando o mundo por andar de bicicleta. (Vide em: https://sintesecristablog.wordpress.com/2016/01/22/filosofo-luiz-felipe-ponde-explica-por-que-deixou-de-ser-ateu/ Acesso em 05.03.2017).


[27] O bom selvagem ou o mito do bom selvagem é um personagem modelo ou tópico literário na literatura e no pensamento europeu da Idade Moderna, que nasce com o contato com as populações indígenas da América. Trata-se de casos nos quais escritores colocavam o homem em primeira opção, em lugar de Deus.


As utopias do século XVI (Erasmo de Rotterdam, Elogia da Loucura; Thomas Morus, Utopia) e obras como Baltasar Gracián (El Criticón) no século XVII, levam à definitiva discussão da natureza humana como má por natureza (Leviathan de Hobbes) ou boa por natureza, como pretendeu o Iluminismo (sobretudo Rousseau), que volta a descobrir exemplos de bons selvagens nas ilhas do Pacífico (tropicais e paradisíacas como as Antilhas, como indígenas nus de fácil trato e natureza pródiga) que descrevem viajantes como James Cook e produzem histórias como a do motim do Bounty.


[28] Afinal como esta o desejo humano no mundo contemporâneo depois de tantas mudanças na cultura? A ciência a partir da segunda metade do século XX, cria novos paradigmas que revolucionam o cenário do pensamento científico e da cultura. A nova tecnologia informática do ponto de vista sociológico criou fatos geradores de uma insegurança e um sentimento de precariedade totalmente novo. Mas do ponto de vista do processo de subjetivação também criou novos fenômenos no terreno da simbolização.  Há um enigma do interior que necessita ser construído pela imaginação criativa.


O excesso de estímulo à sensorialidade pela cultura da imagem, a cultura midiática, à perda dos limites entre público e privado e a exposição excessiva à nudez, à sexualidade equacionada com a pornografia, haveria um comprometimento da imaginação criativa e, portanto, da subjetividade humana? E será que isso conduz a perturbações no âmbito do desejo e do prazer? A guisa de adiamento, pretende-se desenvolver a ideia de que a cultura contemporânea promove perturbações nos processos simbólicos que conduzem a prejuízos na construção da subjetividade.


[29] O self moral é obrigado a lidar com resultados imprevisíveis das ações críticas e inovadoras do self. As ações iniciais do Eu podem ser diferentes de suas ações finais por causa de ocorrências imprevistas e de acidentes, o que leva o Eu a modificar o curso de suas ações iniciais, especialmente, quando elas implicam questões de ordem moral.


Se a previsão total não é possível na ciência, pois é improvável que os seres humanos possam alguma vez alcançar o conhecimento suficiente de todas as variáveis controladoras, muito menos o é nas ações críticas e inovadoras do Eu.


Gisele Leite

Gisele Leite

É professora universitária, pedagoga, bacharel em Direito UFRJ, mestre em Direito UFRJ, mestre em Filosofia UFF, Doutora em Direito USP. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas. Membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM. Email: professoragiseleleite@yahoo.com.br


Palavras-chave: Liberdade Globalização Modernidade Líquida Superinidivualismo Hiperindividualismo Consumismo CF CC

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